
Anticristo, novo filme do dinamarquês Lars Von Trier, parece se inserir em sua cinematografia como mais um exemplar da safra de dramas psicológicos com fundo social que caracterizaram seus filmes de maior visibilidade nos últimos dez anos: o surpreendente Dogville e sua cansativa continuação Manderlay. A impressão é reforçada pelo título de filme de terror. Ainda que tenha seus momentos, seria difícil classificá-lo neste gênero. Em lugar do medo da ameaça iminente, o casal (vivido pelos excelentes Willem Dafoe e Charlote Gainsbourg) experimenta, após a traumática perda do filho, um temor generalizado que não encontra encarnação. O trauma da perda se estende, então, por toda a natureza que os cerca em seu exílio terapêutico (o marido é terapeuta profissional) no Edem, casa de campo da família onde passaram o último verão com o filho. A preferência por mostrar o que está por baixo, revelando, sob a aparência idílica da superfície, um mundo vil e selvagem, lembra o David Lynch de Veludo Azul.
Segundo o diretor e roteirista, o filme foi concebido como parte de sua recuperação de uma depressão profunda. No decurso da história, o casal de Anticristo passa da relação distanciada e intelectual com os sentimentos e a vida, característica do processo terapêutico empreendido pelo marido, a uma intimidade orgânica e violenta com as próprias necessidades. É somente no final que compreendemos a afirmação do diretor, quando chama Anticristo de “o filme mais importante de toda a minha carreira”. É que, apesar da violência e do choque no miolo da trama, este filme não compartilha do pessimismo apocalíptico de seus outros trabalhos. Com imagens belíssimas, Anticristo, mais que conto de horror, é uma crônica de redenção. Um filme que merece ser visto deixando os preconceitos em casa.