
(The Fourth Kind, Olatunde Osunsanmi, EUA, 2009)
crítica publicada no dia 11/01/2010, jornal A Tarde (Salvador - Bahia), Caderno 2
Em Contatos de Quarto Grau a psicóloga Abbey Tyler investiga uma série de pacientes que, em Nome, cidade do estado de Alaska, experimentam os mesmos sintomas: durante a noite, após serem observados por uma sinistra coruja, os pacientes entram (ou acreditam nisso) em contato com seres violentos não humanos. Conforme avança na investigação, a psicóloga se convence da veracidade dos relatos. Logo na primeira cena, Milla Jovovich se dirige para a câmera e esclarece ser o filme uma dramatização de acontecimentos reais. Voz e imagem de uma entrevista com a “verdadeira” Abbey Tyler, bem como gravações da polícia e de sessões terapêuticas, entrecortam a narrativa. Em alguns momentos a tela é dividida entre dramatização e imagens “de arquivo”, em outros a banda sonora é contaminada pelos relatos “verídicos”.
Se por hora o recurso engana o desavisados, breve pesquisa revela o tecido da fábula - o website composto pela produção (o suspeitíssimo http://alaskapsychiatryjournal.org/entries/Dr-Abigail-Tyler-Bio.html) não resiste a três cliques do mouse. Criado em agosto de 2009, sequer tem uma home-page para abrigá-lo.
O problema não é exatamente a fantasia em torno da história - afinal de contas, todo filme de alguma forma manipula a realidade - mas quanto de seu êxito é depositado na crença do espectador de que está diante de fatos verídicos. Contatos de Quarto Grau lastreia sua trama no status de realidade que confere à encenação, elevando o nível de exigência do público - o que distancia a audiência, forçando-a a uma atividade mais analítica (isso é mesmo verdade?) que expectatorial. E não é somente o marketing viral que se evidencia a um olhar mais atento, pois também a representação é permeada de erros que minam suas pretensões. De que adiantaria, por exemplo, trocar os nomes dos personagens, se a protagonista aparece de cara limpa numa entrevista que dura todo o filme? Ao recurso da “história de fita encontrada” segue-se um excesso de artefatos para confirmação da veracidade. Em determinado momento queremos dizer ao diretor: “Tudo bem, eu acredito! Conte agora sua história”, mas o filme segue determinado em nos provar o desnecessário. Detona, assim, a experiência cinemática, interditando a desejada imersão.
Exemplos bem sucedidos nesta seara (Atividade Paranormal, Distrito 9, Cloverfield e A Bruxa de Blair) mostram que não é tanto a veracidade dos fatos, mas a boa e velha verossimilhança aristotélica (grosso modo: a coerência lógica entre os fatos de uma história) que define o êxito da narração. Já a suspensão da descrença se encarrega de colocar o expectador no lugar correto da apreciação, levando-o a desligar certos impedimentos da esfera racional para curtir o filme plenamente. A verossimilhança e a suspensão da descrença permitem, por exemplo, que assistamos a Procurando Nemo sem nos importarmos com o fato de que peixes falam, pois na lógica interna daquela história está previsto que peixes falam. Se, no entanto, o Tubarão de Spielberg pára de destroçar o barco de Richar Dreyfuss para explicar, em inglês perfeito, as razões de sua violência, tanto a verossimilhança quanto a suspensão da descrença seriam comprometidas, gerando um final insatisfatório - embora um tanto engraçado.
Cabe um comentário sobre a força das imagens “reais” de eventos bizarros. Se há um momento em que Contatos de Quarto Grau nos captura é quando os pacientes da Dra. Tyler se desconjuntam todos diante da câmera, suscitando horror genuíno. Algo na linha dos videotapes de O Chamado, este ainda mais tétrico por seu aspecto de coisa antiga, e que Contatos… atualiza na direção de um digital tosco, caseiro e assustador, produzindo, por breves momentos, os rasgos na realidade que o filme como um todo busca sem alcançar.
por Davi Lopes Ramos