O Cinema em Naupati
Crítica: Avatar

a sexy Neytiri

Avatar, filme e obsessão pessoal do diretor e roteirista James Cameron, gerava seguidores antes mesmo de sua estréia. O que é natural quando o diretor que revolucionou os filmes de ação com a série Exterminador do Futuro e encantou o mundo com Titanic, de quebra elevando os padrões técnicos e criativos da indústria,  resolve bater mais alguns recordes.

A história fala de uma missão terráquea ao planeta Pandora, habitado pelos pacíficos Na’vi - espécie de índios azuis do espaço. Nosso objetivo: a extração de um precioso minério, de vital importância para a sobrevivência do planeta. Avatares são corpos artificiais idênticos aos dos Na’vi, controlados `a distância por seres humanos em uma espécie de fusão mental. A trama ecológica nos coloca na posição de vilões, como visto anteriormente em Planeta 51, Distrito 9 e Wall-E. Referências claras compõem uma alegoria da política norte-americana recente, com o uso de termos como “ataque preventivo” (o famoso preemptive atack) para justificar o extermínio dos pacíficos Na’vi.

Escrito em 1994, as filmagens deste épico de quase três horas só começaram em abril de 2007. Explica-se: a tecnologia da década de 90 não daria conta da imaginação do diretor, que preferiu aguardar a evolução da computação gráfica. Ao término da projeção, a espera se mostra perfeitamente compreensível. A produção impressiona pela quantidade de elementos digitais em perfeita integração ao elenco humano, compondo um mundo fantástico de extensão e complexidade inéditos, no qual a audiência mergulha deliciada. Logo estamos imersos no planeta Pandora, desejosos de viver as experiências de tradição e intimidade com a natureza pelas quais passa o fuzileiro Jake Sully (Sam Worthington). Resultado não só do esmero técnico como também de sua história bem contada, que revigora antigos clichês com simplicidade e beleza - em especial o conto do invasor apaixonado, como visto antes em Dança com Lobos e Pocahontas.

Difícil imaginar este filme vindo ao mundo antes de Matrix e do aperfeiçoamento das técnicas de captura de movimento, em que a performance do ator é digitalizada para a criação de personagens virtuais. Em 2002, quando o Gollum de A Sociedade do Anel chegou a ser cogitado para uma indicação ao Oscar (na atuação de Andy Serkis), Cameron vislumbrou um caminho a seguir. Não `a toa, foi a Weta, empresa de efeitos visuais de Peter Jackson, quem se encarregou da computação gráfica deste filme. Como resultado, as versões avatarizadas dos atores têm riqueza de detalhes, com expressões suaves e naturais, a anos luz de distância dos bonecos robotizados de filmes como O Expresso Polar ou Beowulf.


o fuzileiro Jake Sully

O recurso da projeção em 3D é utilizado com mais discrição do que faria supor o empenho de Cameron em disseminar o formato - em geral, o diretor evita projetar objetos em direção ao campo de visão do espectador. Embora acrescente realismo ao mundo criado, o encanto inicial se perde depois de alguns minutos, naturalizando-se ao olhar. Considerando-se a perda de luminosidade ocasionada pelos óculos 3D, o ganho é questionável. Mais importante que querelas técnicas, no entanto, é a possibilidade de ver em ação um dos grandes mestres de seu ofício. O filme arrebatou, no último domingo, os Globos de Ouro de Melhor Filme Dramático (Best Motion Picture - Drama ) e Melhor Diretor para James Cameron (Best Director - Motion Picture), sendo portanto um grande candidato para o Oscar.

Um Pouco Sobre o 3D

Ao contrário do que se pode imaginar, o cinema sempre foi 3D. Na técnica tradicional (assim como na fotografia e na pintura), a sensação de tridimensionalidade é produzida pelas relações entre volume e dimensão. Por conta disso, o filme convencional permite que mantenhamos durante todo o tempo uma mesma distância focal, o que não acontece com os óculos especiais. Tentar apreciar a periferia da imagem em 3D é uma experiência frustrante, pois tudo o que se vê são figuras desfocadas. Com isso, o diretor possui mais controle em relação ao que podemos ou não destacar da cena. Com o 3D perdemos em liberdade, luminosidade e nitidez, mas ganhamos em volume, profundidade e imersão. Ao que tudo indica, no atual estado tecnológico estamos diante não de uma completa revolução na experiência do cinema, mas de uma adição significativa à sua caixa de ferramentas.

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