O Cinema em Naupati
Onde Vivem os Monstros (comentário)

Resolvi assistir ao novo do Spike Jonze, Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are), com uma crítica em vista. Infelizmente o filme não chegou (e nem tem data para) [EDIT: o filme já estreiou na capital baiana] em Salvador e eu deixei a crítica pra lá, o que não deixa de ser uma oportunidade para exercer o comentário, formato mais simples e faceiro, pois desobrigado de apresentar uma tese plausível (embora frequentemente aconteça).

ilustração do livro


O filme é baseado em um livro de 1968, que por um acaso encontrei na última sexta-feira na livraria Tom do Sabor, no Rio Vermelho. Com ótimas ilustrações do autor, Maurice Sendak, o texto é minimalista e descreve em poucas palavras um universo infantil de solidão e revolta. Me cativou especialmente a última frase, que não vou dizer aqui para não estragar no leitor o prazer de encontrá-la.

Difícil imaginar que um livro tão curto pudesse dar origem a um filme tão bom, mas  Jonze tem uma sensibilidade anárquica que o aproxima do universo infantil - acredito que nenhum outro diretor teria conseguido levar o projeto adiante se mantendo fiel à essência da história. Algumas cenas são acrescentadas, outras complexificadas (algo raro em adaptações), tendo como resultado uma hora e quarenta de narrativa fluida, sem barrigas. Contribui para isso a experiência do diretor com videoclipes, que lhe dá subsídios para belíssimas cenas musicais que possuem vida própria, com o uso de estratégias sonoras lúdicas e originais, derivando numa estranheza pintada de afetos.

Max com seu monstro de estimação, dublado por James Gandolfini


O diretor poderia ter usado a computação gráfica para criar os monstros do mundo de Max, mas preferiu ao invés disso trabalhar com bonecos de verdade, deixando o CGI apenas para as expressões faciais. Decisão a meu ver acertada, pois confere aos personagens um jeitão fofo, táctil e muito crível. Difícil não querer fazer como Max no meio deles, abraçá-los e viver naquele mundo de ingenuidade e leveza, onde mesmo o sofrimento é suavizado pela atmosfera de sonho.

Jonze me cativou com esse filme que remete à minha própria infância, com suas alegrias e também com sua tristeza. Onde Vivem os Monstros tem tudo para fazer sucesso e marcar época entre o público infantil - um pouco como filmes como História sem Fim e Conta Comigo para minha geração - fornecendo elementos para muitas sessões de análise e conversas em mesas de plástico na Dinha de 2030.

Para ler, basta uma sentada de 10 minutinhos na livraria Tom do Sabor. Mas, se o leitor não for casquinha como eu, poderá ter o livro por módicos R$ 35. Pense como um investimento: será o primeiro livro que dará a seu filho.

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