
Dancer in the Dark (2000, Lars Von Trier)
Fazendo pesquisa para uma crítica sobre Nine e a evolução dos musicais, assisti apenas hoje (falta grave, reconheço) a Dançando no Escuro, de Lars Von Trier - devo dizer que estou impressionado. É, me parece, o melhor de seus filmes, pois nele encontram-se em seu ápice forma e conteúdo. Se em Dogville o drama disputa espaço com a (contundente, mas óbvia como geografia na sétima série ) alegoria da formação estadunidense, aqui não é possível precisar onde começa um e termina o outro. Dançando… é obra mais coesa e inovadora na forma - demora a ser processada.
Bjork interpreta a imigrante tcheca Selma Jezkova, que vai aos EUA para juntar dinheiro e pagar uma operação pro filho. Em vez de se referir diretamente à trama, como é comum, em Dançando… os trechos musicais representam os sonhos acordados da personagem, quando elementos de cena ganham vida numa sinfonia imaginária. Com uma história elaborada em dois atos constrangedoramente díspares, entre a leveza total e a tristeza irrecorrível, o filme agrega profundo conteúdo humano, expressando com grande beleza os valores da transcendência do espírito sobre a matéria num inequívoco libelo contra a pena de morte.
Se os moderninhos da câmera na mão assistissem Von Trier com a atenção que este merece, percebendo-o em seus diversos níveis antes de submetê-lo a certos dirigismos ideológicos, encontrariam nele não só o crítico da sociedade norte-americana, mas também um exímio dramaturgo e sensível diretor de atores, que não prescinde da técnica para alcançar seus propósitos. Para isso, basta dizer que extraiu da cantora Bjork, em sua primeira atuação no cinema, uma das performances mais convincentes, heróicas e comovedoras da última década.
por Davi Lopes Ramos