
Audrey Hepburn em My Fair Lady (George Cukor, 1964)
Musicais quase sempre me entediam. Sou do tipo que torce para que a música acabe, e fico impaciente para saber o que acontecerá a seguir. Não deixam de me tocar, no entanto, os filmes do gênero que superam a burocracia cênica que em geral os engessa.
A trama de My Fair Lady não é nova hoje e não o era à sua época - trata-se da fábula de transformação social de Pigmaleão, peça de 1913 do dramaturgo irlandês George Bernard Shaw. Interessante como o filme trata da questão da diferenciação social através do modo de falar, pela relação que se desenvolve entre Eliza Doolittle, a pobre florista, e o professor de linguística Henry Higgins, que por causa de uma aposta a tira das ruas para tranformá-la em uma lady . A voz de Audrey Hepburn teve de ser dublada nas músicas - motivo pelo qual a mesma não foi sequer indicada ao Oscar. Nada que diminua o mérito de sua atuação, sempre graciosa e dotada de brilho próprio.
As ótimas músicas cativam e entretêm, com melodias ricas e letras que trabalham, com picardia, tanto conteúdos de crítica social quanto de reafirmação do status aristocrático. O modo como se integram ao tecido narrativo é interessante - as coreografias se misturam ao cenário de modo orgânico, e certos trechos da música compões mesmo os diálogos. Outras vezes, a música começa e é logo sobreposta por trecho mais propriamente narrativo, para depois ressurgir com novos elementos, sem no entanto parecer mutilada ou fora de lugar. Exemplo disto é a cena abaixo, em que o Professor Higgins conversa com seu parceiro na empreitada, ao mesmo tempo provocando uma performance musical que será retomada na cena seguinte, quando conversa com a governanta.


A direção de George Cukor não é nada ordinária, pois trabalha seus quadros com precisão e criatividade, valendo-se para isso do maior controle próprio das filmagens em estúdio. Quando o pai de Eliza a procura para pedir dinheiro temos uma bela passagem de tempo, que, em um único plano e utilizando apenas efeitos de encenação, representa com sensibilidade a experiência de ver um dia começando, da inércia à agitação (cena abaixo).


Na imagem seguinte, temos um belo exemplo do esmero na composição de quadro, aproveitando bem a proporção anamórfica para introduzir, no inferior esquerdo do quadro, a personagem que irá revelar ao bêbado Alfred Doolittle que sua filha subiu de vida.



Ao final da experiência reafirma-se a antiga opinião de que em todo gênero cinematográfico encontram-se boas e más obras, expressões de gênio e de mediocridade, e este crítico vê-se de repente curtindo e cantando junto, deliciado com a atmosfera de ingenuidade que permeia esta bela - ainda que contaminada por um machismo anacrônico mesmo em 64 - fábula moral que é My Fair Lady.