
Muito raramente a crítica cinematográfica vai além de uma busca preguiçosa por elementos que corroborem certos preconceitos de como o cinema deve ser. Este movimento, quase sempre pautado por uma predileção pelo raro, exótico ou simplesmente europeu, deixa muitos mortos pelo caminho. A comédia romântica, em especial, é considerada entretenimento inferior no qual se aplicam fórmulas desgastadas - mesmo os melhores exemplares do gênero são elogiados com ressalvas.
Enquanto a crítica se torna cada vez menos relevante para o público comum, a comédia de romance contemporânea se reinventa desde Annie Hall (Woody Allen, 1977) e invade o território do cinema independente norte-americano - filmes como Juno, Os Excêntricos Tenenbaums e Embriagados de Amor alcançaram o grande público associados ao rótulo de indie autoral. Em Harry & Sally (1989), Billy Crystal e Meg Ryan traduzem para o grande público um romantismo permeado de elementos próprios à década - a reconstrução das relações afetivas sob a perspectiva da liberação sexual da década de setenta. Na década seguinte, Mensagem para Você (1998), com Tom Hanks e a mesma Meg Ryan, então musa da comédia romântica, falava das mudanças que a internet produzia nos relacionamentos - isso no mesmo ano em que o Orkut foi lançado, antes conhecermos seu potencial destrutivo. Em 2009, Encontro de Casais, com Vince Vaughn e Malin Akerman, tratou com muito humor não do processo de conquista, mas da sustentação do casamento. Ao invés da busca frenética pelo novo, temos o reconhecimento do outro como fonte de descoberta.
Em Simplesmente Complicado, a diretora Nancy Meyers no leva a um ponto interessante deste trajeto. Experiente roteirista, surgiu para o estrelado com o interessante O que as Mulheres Querem (2000), em que o machista publicitário interpretado por Mel Gibson passa, do dia para noite, a ler os pensamentos das mulheres à sua volta. Descobrir e dizer o que se passa na cabeça das mulheres é, ao que parece, o objetivo da diretora - plenamente alcançado com seu novo filme. O elenco é encabeçado pela vip Meryl Streep, interpretando uma bem resolvida administradora de restaurante que se vê entre o seu canalha (e casado) ex-marido (interpretado pelo sacana e engraçado Alec Baldwin), e Steve Martin, o delicado Adam.
Ao posicionar a protagonista no vértice politicamente incorreto da trama, Nancy Meyers se arrisca a perder a adesão da parcela mais conservadora da audiência. O humor, no entanto, é a melhor vaselina, e os pontos menos palatáveis da trama descem macio, sem distanciar o público. O tema do divórcio e suas consequências é tratado com franqueza e maturidade, conferindo à trama aspecto atual sem perder a leveza. Meryl Streep está bela e cativante como sempre. A atriz compõe com paixão uma personagem que se equilibra entre a experiência da mulher madura e a vulnerabilidade juvenil. Em determinado momento, Jane, insegura em seu caso com o ex-marido, pede a seu terapeuta que a encoraje a seguir com o affair. “Eu não perderia isso por nada”, diz à paciente, que sai da sala com um largo sorriso no rosto e pronta para embarcar em sua jornada. A partir daí nos apaixonamos pela personagem, apenas para ser devolvidos a nosso estado normal, depois de muitos risos, 120 minutos depois.
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